NEGÓCIO POLÍTICO: PARTIDOS SEM IDEOLOGIAS SÓLIDAS “GALGAM” O KREMIL DO MPLA EM BUSCA DE APOIOS PARA SEREM LEGALIZADOS NO TC

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A fragmentação da oposição em Angola contribui para a existência de vários partidos, muitas vezes com agendas que refletem a necessidade de maior representatividade. 

ESCRIVÃO JOSÉ 

Para analistas políticos, apesar do surgimento de muitos partidos, o ambiente político em Angola continua a ser moldado pela influência histórica do poder do partido dominante, o MPLA.

“A política angolana mostra semelhanças com a maioria dos países da África subsaariana, onde o partido no poder ganha terreno e a oposição enfrenta desafios de legitimação e marginalização”, disse ao Jornal Hora H, o analista político Geraldo Kassoma Neto.

Para este analista, o surgimento de novos partidos em Angola tem sido frequentemente associado a interesses financeiros, com siglas criadas para aceder ao financiamento público e subvenções estatais, em vez de representarem ideologias sólidas.

Essa proliferação é vista como um negócio político por alguns actores, visando benefícios econômicos pessoais ou de pequenos grupos, em vez de uma verdadeira representação democrática. 

“Nos últimos dias vimos algumas figuras a galgarem, os degraus do Kremil (sede do MPLA), em busca de apoio para legalizar os seus partidos junto do Tribunal Constitucional”, referiu frisando que, muitas siglas pequenas surgem, particularmente próximo a eleições, com o objetivo de captar fundos públicos.

“A existência de fundos destinados aos partidos incentiva a criação de novas formações, algumas sem expressão popular, visando apenas o benefício financeiro”, acrescentou frisando que, esses partidos focam-se na obtenção de recursos financeiros, muitas vezes esquecendo-se da missão de representar os interesses dos cidadãos, enfraquecendo a democracia angolana.

“A um ano das eleições, Angola assiste ao surgimento acelerado de partidos legalizados. É sinal de renovação política? ou puro oportunismo com fins pessoais? Negócio ou democracia?”, questionou Mateus Muanda da Cruz, membro da sociedade civil.

“O grande inimigo que enfrentamos é a pobreza. Os partidos devem trabalhar para resolver os problemas do povo, e não para fins pessoais ou para se manterem no poder. Precisamos de soluções que promovam uma vida mais digna para a população”, acrescentou.

Para o professor universitário, Sampaio Kamenha, o ambiente político em Angola é marcado por desafios de concorrência, com relatos de dificuldades para a oposição e influência do partido no poder em estruturas estatais, o que perpetua a sua permanência.

“A existência de muitos partidos indica pluralismo, mas também fragmentação da oposição perante um partido dominante. No entanto, é fundamental a criação de partidos com seriedade”, referiu.

O para o activista político, Santos José Candeia, o Tribunal Constitucional a entidade responsável pela validação dos partidos, assegurando o cumprimento da Lei para a sua participação nos processos eleitorais, deveria estar avaliar com “muita responsabilidade”, a legalização destas formações políticas.

Para o economista, Samuel Tabita, a percepção de que partidos políticos em Angola funcionam como um negócio é alimentada pelo significativo financiamento público, incluindo valores na ordem dos mil milhões de Kwanzas para campanhas eleitorais.

“Embora a Lei garanta protecção ao património partidário, a corrupção e a falta de transparência levantam preocupações sobre a finalidade das formações políticas legalizadas em Angola”, apontou.

Na sua opinião, a corrupção e a desigualdade social continuam a ser desafios significativos no país, levantando questões sobre a eficácia dos partidos na representação dos interesses públicos. 

“O cenário político angolano é caracterizado por um alto financiamento público, com a existência de múltiplas formações, o que leva ao debate sobre a mercantilização da política em detrimento do desenvolvimento do país”, concluiu.

Refira-se que  Angola conta, actualmente, com 14 partidos políticos legalizados e activos no Tribunal Constitucional.