GRUPO CARRINHO: A CONCENTRAÇÃO SILENCIOSA DO PODER ECONÓMICO
O poder político continua a organizar a economia angolana em torno de uns quantos grupos escolhidos a dedo. Mudaram os nomes. Não mudou o modelo.
Entre os conglomerados que mais rapidamente ascenderam ao centro da arquitectura económico‑política do actual regime, destaca‑se o Grupo Carrinho. Da agro‑indústria à logística alimentar, e agora com incursões evidentes no sector bancário, o grupo tornou‑se parceiro central do Estado. Absorve contratos de grande dimensão, muitas vezes por ajuste directo, e ocupa funções que, numa economia verdadeiramente competitiva, seriam distribuida por por um tecido empresarial plural e independente.
O crescimento empresarial do Grupo Carrinho, por si só, não é problema. O problema é a concentração, a par da opacidade.
Reserva estratégica: o silêncio dos milhões
A Reserva Estratégica Alimentar (REA) foi apresentada como um instrumento de estabilização de preços e protecção do consumidor. A sua operacionalização ficou associada à Gescesta, ligada ao Grupo Carrinho, enquanto o Entreposto Aduaneiro de Angola surgia como gestor institucional.
Em 2021, no seu primeiro ano operacional, o Estado investiu mais de 200 milhões de dólares na REA. Entre finais de 2021 e 2022, João Lourenço autorizou quatro credítos suplementares, a este organismo, no valor total de 194,4 milhões de dólares.
Segundo a Rádio Nacional de Angola, em 2022, a REA movimentou mais de 500 milhões de dólares em compras e vendas de produtos alimentares.
Vários documentos e relatos internos indicam que o operador privado concentrou praticamente toda a cadeia: indicação de fornecedores internacionais, negociação de preços, armazenamento, facturação e distribuição nacional. O Estado financiou e o operador executou.
Em 2023, João Lourenço, ordenou a extinção do contrato com a Gescesta. Invocou-se suspeitas de má gestão e houve uma auditoria para apuramento dos factos. Porém, não houve relatório público. Não houve prestação de contas.
Num país onde milhões de pessoas enfrentam dificuldades alimentares, a ausência de prestação de contas não é um detalhe administrativo. É um problema político.
O abastecimento das FAA e das Polícias
Já depois de ter ficado com a gestão da REA a seu cargo, desde 2023 e até recentemente, o Grupo Carrinho acumulou o contrato de abastecimento exclusivo das Forças Armadas Angolanas (FAA). Durante esse período, surgiram denúncias internas de falhas crónicas no fornecimento alimentar.
Em Janeiro passado, o fornecimento alimentar deixou de ser um exclusivo do Grupo Carrinho e passou a ser partilhado com outra empresa, a ATL-Alfa – Transporte e Logística, Lda., ligada ao grupo de Silvestre Tulumba — também associado ao actual círculo de poder. Esta empresa foi criada cinco meses antes de obter o contrato de abastecimento logístico das FAA. Não houve explicação pública para a reestruturação.
Segundo informações verificadas pelo Maka Angola, o Grupo Carrinho controla também cerca de 70 por cento do abastecimento logístico do Ministério do Interior e do Comando-Geral da Polícia Nacional.
Auge político e incursão na banca
A projecção internacional do Grupo Carrinho coincidiu com o reforço da aproximação de Angola aos Estados Unidos, uma das marcas centrais da política externa de João Lourenço.
Em Dezembro de 2024, o então presidente norte-americano, Joe Biden, visitou as instalações industriais da empresa em Benguela, no contexto da estratégia do Corredor do Lobito. O gesto funcionou como validação política e económica do grupo.
Por outro lado, a 17 de Dezembro de 2021, o Grupo Carrinho já se tornara proprietário do Banco do Comério e Industria (BCI).
Passados dois anos e meio, em Agosto de 2024, a Autoridade Reguladora da Concorrência autorizou uma operação de concentração que permite ao Grupo Carrinho deter o controlo do Banco Keve, sujeita à aprovação do Banco Nacional de Angola. A percentagem de acções envolvida foi omitida na decisão publica, limitando a visibilidade pública sobre a dimensão da alteração accionista.
Em 2025, o Grupo adquiriu 7,61% do capital social através da Congolian, sua subsidiária financeira.
Caso seja consolidada, esta trajectória coloca o Grupo em posição dominante simultaneamente na agro-indústria, na logística estratégica e na banca.
Os conflitos de interesse resultantes desta concentração podem ser difíceis de mitigar, sobretudo num contexto institucional onde os mecanismos de supervisão e transparência ainda são deficitários. Num sistema financeiro que ainda está em fase de consolidação, a interligação destas áreas aumenta o risco sistémico: redução da concorrência, menor pluralidade na concessão de crédito e possibilidade de alinhamento estratégico entre banca e interesses político-empresariais próprios. Isso permite, por exemplo, que o Grupo Carrinho influencie cadeias de valor inteiras, desde a importação de bens essenciais até ao financiamento de projectos estratégicos.
Nesse cenário, a dependência estrutural da economia angolana em relação a um único operador sairia reforçada, dificultando a emergência de concorrentes e limitando a capacidade do Estado para regular o mercado de forma equilibrada.
FALTA DE INFORMAÇÃO PÚBLICA
Segundo os dados acessíveis, o Grupo Carrinho não publica contas consolidadas auditadas. Não existem balanços, demonstrações de resultados ou relatórios de gestão disponíveis ao público.
A única referencia conhecida foi um lucro anunciado verbalmente — cerca de 322,4 milhões de dólares em 2022 —, sem nenhuma documentação de suporte.
Ao longo de quase três décadas de actividade, o grupo operou sem auditorias públicas, sem divulgação consistente de informação financeira e sem uma única série histórica de indicadores ou relatórios auditados. A narrativa pública do Grupo, apesar de ambiciosa e enternecedora, não é acompanhada por provas financeiras verificáveis.
Sebe-se que o Estado angolano líquidou, em 2024, cerca de 30 mil milhões de kwanzas em dívidas ao Grupo. Não há documentação pública detalhando a estrutura financeira dessas operações.
Quando os contratos públicos, as garantias soberanas e os sectores estratégicos convergem numa mesma estrutura empresarial, elevam-se os critérios de exigência relativos à responsabilidade pública e à transparência.
Será que o Estado conhece o nível de solidez e conteúdo do Grupo ao qual emite garantias soberanas? Ou temos aqui actos de pura negligência no exercício de funções públicas?
Conclusão: riscos estruturais
A concentração económica em torno de uns quantos conglomerados levanta questões económicas e políticas relevantes.
A inexistência de contas públicas consolidadas, a utilização de estruturas societárias no exterior e a proximidade entre accionistas e decisores políticos alimentam dúvidas legítimas sobre a separação entre o interesse público e os interesses privados que orbitam o poder.
Quando um único grupo empresarial se expande simultaneamente na banca, na logística alimentar e em contratos ligados à segurança do Estado, qualquer choque operacional ou financeiro que afecte esse grupo — no caso em apreço, o Grupo Carrinho — tem impacto sistémico no país.
O poder do Grupo Carrinho não está apenas no que controla. Está nos silêncios e nas interrogações que levanta. E é este poder ocultado que está a definir o futuro de Angola.
(Leia em breve o segundo artigo deste dossiê sobre as ligações internacionais e financeiras do Grupo Carrinho, com mais questões sobre due dilligence e transparência.)




