SIC EM FESTA: DEVIAM BRINDAR OS ANGOLANOS COM A DETENÇÃO DOS ASSASSINOS DO POLÍTICO MFULUMPINGA LANDO VICTOR E DO JORNALISTA RICARDO DE MELO
Honrar meio século de existência implica reconhecer o passado, reparar injustiças e reabrir feridas que nunca sararam porque nunca foram tratadas com seriedade
No ano em que o Serviço de Investigação Criminal (SIC) celebra o seu 50.º aniversário — desde a sua institucionalização a 28 de Novembro de 1975 — a instituição assinala meio século de existência, de avanços tecnológicos, reformas estruturais e desafios permanentes no combate ao crime. Mas, entre as homenagens oficiais e os discursos de exaltação, permanece no ar uma exigência que atravessa décadas: a responsabilização dos autores dos assassinatos de Mfulumpinga Lando Victor e de Ricardo de Melo. Se o SIC quer realmente brindar os angolanos neste marco histórico, deveria fazê-lo com justiça e verdade, não apenas com celebrações.
A morte do político Mfulumpinga, líder do PDP-ANA, abatido a tiro em 2004, continua envolta em contradições, suspeitas e silêncios institucionais. O mesmo ocorre com o brutal assassinato do jornalista Ricardo de Melo, em 1995, um caso que traumatizou a imprensa angolana e marcou profundamente o debate sobre liberdade de expressão. Em ambos os episódios, os processos foram arquivados ou arrastados, alimentando a percepção pública de impunidade e fragilidade do Estado na tutela dos direitos fundamentais.
Hoje, quando o SIC se apresenta como uma força mais moderna e robusta, a efeméride deveria servir de ponto de viragem. O país não precisa apenas de veículos novos, comunicação modernizada ou discursos enérgicos contra o crime organizado. Precisa, acima de tudo, que a investigação criminal renda contas à sua própria história — sobretudo àquela que ainda sangra na memória coletiva.
Honrar meio século de existência implica reconhecer o passado, reparar injustiças e reabrir feridas que nunca sararam porque nunca foram tratadas com seriedade. A justiça não prescreve na consciência de um povo. Enquanto estas mortes continuarem sem respostas, o aniversário do SIC será sempre uma festa incompleta.
Se o SIC deseja realmente brindar os angolanos, que o faça com a coragem institucional de pôr fim a décadas de impunidade. Encontrar e responsabilizar os assassinos de Mfulumpinga Lando Victor e de Ricardo de Melo seria, aí sim, um brinde digno de 50 anos de história — e um sinal claro de que o país está finalmente pronto para enfrentar a verdade.



