O NOVO NORMAL QUE A MINHA SOCIEDADE VIVE É A “LEPRA” POLÍTICA – DIAMANTINO MARTINS

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Na minha banda, a valorização do ser humano mede-se pelos cargos que ocupa ou pelas vantagens económicas que possui, um fenómeno que cresce de forma assustadora.

O respeito, a consideração e até a amizade parecem depender do estatuto. Quando alguém é nomeado, a mobilização de pessoas ao seu redor assemelha-se a uma colmeia de abelhas: telefonemas constantes, visitas frequentes, elogios exagerados e promessas de lealdade eterna e quase canina.

Porém, quando este indivíduo que é idolatrado é exonerado, o cenário muda drasticamente e torna-se um “leproso político”, evitado por muitos e esquecido por quase todos.

Poucos, muito poucos, conseguem preservar as suas amizades depois de deixarem os cargos. A maioria das relações revela-se circunstancial, baseada na conveniência e não nos valores. Passamos a ser “homens de valor” apenas quando somos tratados por “Excelência”, “Chefe”, “Director” ou outros títulos que nos colocam num pedestal temporário. A dignidade humana deixa de ser intrínseca e passa a ser condicionada ao poder que se exerce.

Esse desequilíbrio social é perigoso, pois normaliza a cultura da bajulação e do interesse. Ensina-nos, de forma silenciosa, que o importante não é o carácter, a competência ou o contributo genuíno, mas sim a posição social que se ocupa na hierarquia. Com o tempo, essa mentalidade corrói os valores colectivos, enfraquece a meritocracia e alimenta a competição desleal, onde a incompetência se exibe com o charme da arrogância.

A grande questão que se impõe é: será que, sem cargo, o ser humano deixa de existir socialmente? Será que não pode posicionar-se, opinar ou contribuir para o desenvolvimento do país? Angola não tem 35 milhoes de cargos. Um país não pode sustentar cargos suficientes para satisfazer milhões de habitantes, mas pode — e deve — criar espaço para que cada cidadão contribua com o seu talento, independentemente da função que desempenha.

O verdadeiro desenvolvimento começa quando compreendemos que o valor de uma pessoa não está no cargo que ocupa, mas nos princípios que carrega, no impacto que gera e na coerência entre o que diz e o que faz.

Contudo, enquanto continuarmos a confundir poder com valor humano, a “lepra política” continuará a ser o nosso novo normal. Os cargos passam, mas as instituições ficam.

Diamantino Martins