“NÃO ME CORTEM A LÍNGUA”: GENERAL “PAKAS” REAGE À ACUSAÇÃO DE INJÚRIAS AO PRESIDENTE JOÃO LOURENÇO

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O General na reserva Manuel Mendes de Carvalho, conhecido como “Pakas”, compareceu esta terça-feira à Procuradoria-Geral da República, em Luanda, após ter sido notificado pela Direção Nacional de Investigação e Ação Penal. O histórico combatente do MPLA, que lutou contra o colonialismo português e participou na guerra civil, foi constituído arguido num processo-crime por alegadas injúrias ao Presidente João Lourenço. 

Em causa estão declarações públicas em que acusou o Governo de “roubar o povo” e apelou ao voto na UNITA nas próximas eleições. O general garante que não se trata de calúnias, mas sim do exercício legítimo do direito à crítica, afirmando: “Eu sou cidadão, tenho direitos, e um deles é criticar a má governação”. 

DW África: Senhor General “Pakas”, o que aconteceu hoje? O senhor foi ouvido na Direção Nacional de Investigação e Ação Penal (DNIAP) em Luanda, certo?

General “Pakas”: 

Sim, fui ouvido no DNIAP e informado de que existem algumas queixas contra mim, por alegadamente ter injuriado Sua Excelência, o Senhor Presidente da República, João Lourenço. 

DW África: Trata-se de uma acusação por difamação?

General “Pakas”: Exatamente, por difamação, calúnia, injúria, etc. Fui constituído arguido e, doravante, vamos trabalhar no sentido de levar este processo até ao julgamento.

DW África: Na sua opinião, esta acusação tem algum fundamento?

General “Pakas”: Acho que existe um mal-entendido da parte da pessoa que me acusa.

DW África: Quem é que o acusa concretamente?

General “Pakas” arguido por alegadas injúrias ao Presidente João LourençoFoto: DW/A. Cascais

General “Pakas”:  O Presidente da República, através dos órgãos judiciais. Mas continuo a acreditar que é um mal-entendido. Além disso, penso que não está a ser observada a lei constitucional. Veja: eu sou um cidadão, tenho direitos e deveres.

Um dos meus direitos é criticar a má governação. O meu país enfrenta problemas muito sérios em termos de gestão, sobretudo nos domínios sociais.

O nosso povo vive uma situação catastrófica, lamentável. Há pessoas a comer nos contentores do lixo. Eu sou general, tenho um compromisso com este povo, porque durante a minha carreira militar jurei defendê-lo até às últimas consequências, mesmo que tivesse de entregar a minha vida.

O que tenho feito é defender o povo. Cada um é livre de apresentar a sua verdade, mas acredito que, no momento próprio, vamos esclarecer este mal-entendido entre mim e o Senhor Presidente da República.

Já tentei, em alguns momentos, encontrar-me com ele para esclarecer certas situações, mas até agora mostrou-se indisponível.

Por isso, vamos dar seguimento ao processo e ver até onde chega. Creio que, no momento certo, tudo ficará bem.

DW África: O senhor lutou a vida inteira pelas causas do MPLA — primeiro contra o colonialismo, depois contra a guerra civil, contra a UNITA. Tem medo? Receia que lhe sejam retiradas as patentes agora que está na reserva?

General “Pakas”:  Eu só gostaria que não me cortassem a língua. 

(Risos) É a única coisa que peço: que não cometam um ato de terrorismo contra mim, que não me cortem a língua. Eles podem despromover-me, isso é normal. Ele não ficará eternamente a governar este país.

Além disso, a própria História vai absolver-me. Estes são momentos maus, mas a lei é para cumprimento obrigatório por todos nós, independentemente dos estatutos que cada um tenha.

DW África: O senhor chegou a apelar ao voto na UNITA, em Adalberto Costa Júnior, nas próximas eleições?

General “Pakas”: Sim, sim, senhora. Nós somos angolanos. A UNITA é um partido que está aqui em Angola e, no meu entender, tem um programa muito bom — melhor do que o programa do atual MPLA.

Eu voto como angolano, porque acredito que é preciso resolver os problemas do país.

Espero também que o MPLA tenha coragem para ajudar a resolver as divergências com a UNITA. 

Acho que, pela atitude da direção atual, talvez a correlação de forças aumente. Não estão a ser justos com a UNITA. Não é correto arranjar um bode expiatório.

DW África: O senhor é apelidado por muitos de “general do povo”. Tem ambições políticas? Já foi deputado. Tem outras ambições?

General “Pakas”:  A minha ambição é ver o meu país bem. Angola é um dos países mais ricos do mundo: dos 45 minerais existentes, temos 35. É inconcebível que continuemos a viver estas vicissitudes.

Gostaria de ver paz efetiva em Angola e que os problemas do povo fossem resolvidos.

Essa é a minha maior ambição. Já tenho uma certa idade e gostaria de aproveitar o tempo que me resta para conviver com os meus amigos e com a família, fazer uma vida sem pressão.