RELAÇÃO ENTRE O FADO E MIM – JOSÉ CARLOS DE ALMEIDA (PENSADOR & ESCRITOR)

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1. Conheci o fado através do programa “Prelúdio”, da TPA, que era apresentado por uma grande figura da comunicação social angolana, o Mesquita Lemos. Eu era telespectador assíduo desse programa. O fado, conquanto não seja uma música clássica, está muito associado à intelectualidade, visto que muitas das suas letras foram e são escritas por grandes escritores portugueses – poetas. Quando se houve fado, os ouvintes preocupados com a compreensão da música e com o enriquecimento do seu vocabulário, têm de consultar um dicionário. Com efeito, o fado contribuiu para o meu enriquecimento vocabular e para desenvolvimento da minha intelectualidade. 

2. Quanto às letras do fado, elas têm um fio temático bem definido e misturam linguagem denotativa com  conotativa. Indubitavelmente, as letras têm poeticidade. Gosto imenso disso!

3. Em 27 de Janeiro de 1996, fui para Portugal estudar (estudei no externato Acrópoles e na Universidade Autónoma de Lisboa, “Luís de Camões”). Na cidade que “cheira bem”, porque “cheira a Lisboa”, tive a oportunidade de ouvir as diversas exibições dos fadistas, através de diferentes programas de televisão da RTP, SIC e TVI. De tanto ouvir fado, há músicas cujas letras ficaram gravadas na minha mente e outras, no coração, devido à sua sentimentalidade.

Ainda estando a morar em Lisboa, fui comprado alguns discos de fado, marcando o início da criação da minha discoteca.

4. Quando regressei a Angola, o fado permitia-me atenuar as saudades que tinha de Portugal, sobretudo. de Lisboa, onde vivi e convivi com grande intensidade e integrei-me com facilidade. Também fui bem acolhido pelos portugueses com quem estudei  e convivi. Na qualidade de turista, fui, muitas vezes, a Portugal e, no Bairro Alto, ia “jantar o fado”. Eram bons momentos de convívio! Muitas vezes, fui à FNAC fazer escuta de discos de fados. Assim, tive contactos com CD interessantes, de fadistas como Ana Moura, Mariza, Kátia Guerreiro, Gisela João [ju-‘ãu] e Teresa Almeida (cujo espectáculo, no Cine Tivoli, tive o prazer de presenciar. Quanto aos Reis do Fado”, Carlos do Carmo e Amália Rodrigues, conheci-os em Angola, através do “Prelúdio”. Na rua do Chiado, em Lisboa, costuma haver um quiosque móvel de venda discos, onde ouvi e comprei alguns discos de fado.

5. Em Angola, assisti ao espectáculo intimista de Mariza, no Hotel Victória Garden, situado na Via Expressa. Naquele evento, ofereci-lhe um “bouquet” de flores e um DVD da história da música angolana.

6. Infelizmente, não pude assistir ao concerto da Ana Moura, no Lookal, mas tive a oportunidade de a conhecer pessoalmente, no Chá de Caxinde, onde tirámos uma foto [‘fô-tô], que guardo religiosamente e trocámos contactos. A partir de então, passou ser um dos destinatários dos meus textos, até eu extraviar o meu telemóvel, de então.

7. Conheci pessoalmente a Amália Rodrigues, no pátio da Universidade, onde me licenciei em Direito. Durante os tempos de estudante, diverti-me imenso em diversas discotecas africanas de Lisboa e em discotecas  das docas, em Alcântara. Contudo, o fado, os clássicos da música angolana (músicas cadenciadas), morna, blues, jazz e a música clássica faziam-me companhia, nos momentos de mementos de recupera das energias, durante a noite e momentos de introspecção. Dois vizinhos meus de então disseram-me que gostavam do cheiro que saía do apartamento que arrendara; que eu  tinha bons gostos musicais; e que gostavam de ouvir o fado que saía da minha casa. Eram os moradores do 3.° andar  e quarto andares (uma velha simpática, que gostava de falar de mim aos demais). Creio que sabia dos meus passos. Essas palavras deram origem a muitas reflexões, pelo que fiz tudo para não os decepcionar.

8. Escrevi muitos excertos dos meus livros, ouvindo fado e música clássica, visto que tenho um número elevado de CD e DVD, ou não fosse eu um melômano. O fado faz parte da minha infância, adolescência e maioridade. Portanto, faz parte da minha vida.

9. O vi a foto da Amália Rodrigues, no Chá de Caxinde, fiquei a pensar  na rainha – a pensar no momentos em que a conheci. Sem hesitação, tirei uma foto diante da sua imagem estampada à porta que dá acesso à sala do edifício.

Em forma de homenagem a grande fadista, um dos símbolos humanos de Portugal, deixo um excerto do fado “Barco Negro”: “Eu sei, meu amor/ que nem chegaste a partir/  pois tudo em meu redor me diz/ que estás sempre contigo.”

10. O fado é um tipo de música cujos instrumentistas tocam de pé. Está é uma observação do músico Simoni Mansini em reacção a um dos meus textos sobre música.

Termino dizendo que é indispensável ter uma boa postura, quando se assiste a um concerto de fado. É importante manter-se em silêncio, quando se toca e canta o fado. Contudo, é permitido aplaudir no fim de cada música.

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